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domingo, 6 de maio de 2012

Meus velhinhos

Sei que me torno repetitiva - já reclamei n vezes do medo que o tempo dos meus velhinhos acabe. Sei que ele se torna cada vez mais curto, mas me embrulha o estômago pensar que ele vai acabar. Dessa vez foi a Dinha a responsável pelo susto. E digo responsável em todos os aspectos, pois ela está muito doente por culpa de sua teimosia. Espero que a mesma teimosia a salve. Primeiro ela decidiu lavar o quarto. Por que cargas uma senhora de quase oitenta anos que paga a terceiros para que façam seu trabalho doméstico decide lavar a porcaria do chão!? Deixa o chão! Nada, ela quer o piso brilhando, escorregou, quebrou três costelas, foi para o hospital e deram um remédio errado para ela, apesar disso, ela se recuperou e voltou para casa. Antes disso, teve uma infecção urinária, daquelas comuns, o médico a mandou tomar antibióticos por 3 meses, ela tomou 1 e decidiu que estava boa e gastava demais com aqueles remédios!!! Também parou com o remédio para o coração - sei lá por quê; afinal ela não está podendo falar. De uma hora para outra essa bomba ia explodir. E quase a levou. Na quinta à noite, o vô e a vó ligaram para dizer que a tinham levado para o hospital muito mal. A mãe quase teve uma coisa e me ligou chorando tanto que não entendi nada, mas fiquei desesperada, ela falava em infarto e eu achei que estivessem operando o coração dela naquela noite. Não dormi. Sexta foi uma angústia só. Cada vez que o telefone tocava, meu coração parava. Estava esperando o pior. Por um momento achei que tivessem escondendo algo de mais grave, contava cada segundo, só queria ir para Cachoeira vê-la, saber se estava viva. Chegamos lá tarde, umas 11 horas e a cara do vô e da vó assustaram um pouco, eles disseram que o médico não dava esperanças. Sempre mantive a esperança, apesar do desespero. No outro dia, eu, a Rafa e o Jô corremos para pegar as únicas três senhas para visita da manhã. O Jô entrou primeiro, saiu rápido e lívido. Depois eu fui. Peguei a mão dela e disse que era eu, que ela tinha prometido ir na defesa do meu doutorado, que tinha prometido cuidar do meu bebê e tinha prometido viver até os noventa, no mínimo, logo ainda faltavam 10 anos, ela que tratasse de melhorar. Pelos bipes no monitor vi que ela me ouvia e pedi a sério que ela ficasse, que ainda precisávamos muito dela - me esforcei muito para não chorar - estava com ela e precisava passar força, mas foi difícil. Saí logo também. O médico veio falar conosco. Disse que ela melhorara um pouquinho, ainda não era hora de comemorar, ainda não sabiam onde era a infecção e os rins dela haviam parado. À tarde fariam diálise. Minha esperança cresceu um pouquinho. No final da tarde, fomos de novo vê-la; mas a disputa por uma senha ainda estava muito acirrada. Todos querem uma. Ela é uma pessoa extremamente querida por todos os sobrinhos e sobrinhos-netos. Não há um de nós que não deva uma grande conquista a ela - eu devo quase todas. Fiquei triste por não encontrar alguns primos lá. Não sei como as pessoas podem ser tão ingratas e egoístas. Fiquei alguns minutos com ela outra vez. Disse de novo que precisávamos dela e pedi a Deus que não a levasse. Com tanta gente inútil no mundo, que escolhesse outro, eu mesma podia fazer uma lista com 10 nomes que não fariam falta a ninguém. Depois achei que estava enlouquecendo e saí da UTI. Ela já desinchara bastante. O médico falou conosco novamente. Disse que ela respondeu bem a diálise, mas o quadro ainda era muito grave. Mais uma noite de ansiedade e maus pensamentos... Hoje de manhã, mesmo sabendo que nenhuma ficha sobraria para mim, fui lá. O médico nos procurou e disse que agora ela estava reagindo bem, o rins voltaram a funcionar e aparentemente a infecção começou a regredir. Graças a Deus! Que alívio. Essa será uma noite cheia de esperança e só com um pouquinho de angústia. Espero ter a oportunidade de brigar com ela por toda essa teimosia e vê-la rindo aquela risada inteira que só ela sabe.

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